Como anda a sua saúde? E a sua vida sexual? Você tem dinheiro suficiente para suprir as necessidades básicas? Não lhe falta amor, trabalho, tempo ou amizades verdadeiras? Poderíamos estender essa lista de perguntas quase ao infinito e tantas seriam as respostas quanto os seres humanos existentes. A multiplicidade se dá mesmo em relação a pessoas que estão em idêntica situação, seja ela de ordem afetiva, financeira, profissional. Quando entramos no campo da subjetividade começamos a espiar a cauda do demônio. No texto que você está lendo, esta palavra não tem nenhuma conotação religiosa. Ela é a denominação que dou a um fantasma que nos assombra, que nos faz ver o bom no lugar do ruim e o ruim no lugar do bom. O exemplo mais evidente é o de quem, confortavelmente instalado numa existência sem sobressaltos, acaba dando um jeito para tumultuar a serenidade de seus dias. Por nada. Porque o que conta, ao fim de tudo, não é o que temos, mas a relação que vamos estabelecendo com o que e quem nos cerca.
No filme O Monge, do diretor Dominik Moll, um dos personagens diz: “O demônio só tem o poder que lhe damos”. Ou seja, é na nossa imaginação que os monstros crescem e passam a ocupar todos os espaços, todos os escaninhos da mente. O que para mim é motivo de tormentos indescritíveis pode deixar meu vizinho completamente indiferente. E, no entanto, a situação é a mesma para ambos. Aqui é que reside o poder de destruição que isso pode causar. Não importa se somos donos de vastas terras e contas bancárias invejáveis. Se dentro de nós persistir o registro mental da pobreza, pobres continuaremos sendo. Visto com certo distanciamento, como não invejar aquele casal jovem, bonito e que todo ano faz fantásticas viagens? Aproxime um pouco mais a lupa e você poderá descobrir resquícios de insatisfação onde tudo parece flertar com o perfeito. Se não conseguimos colocar em perspectiva os nossos planos, o que há realmente de satisfatório neste e naquele momento, estaremos fadados a fracassar em nosso projeto de bem viver.
Podemos afastar o demônio sempre que somos capazes de reconhecer o movimento oscilatório de nossos próprios sentimentos. Hoje aqui, amanhã no outro extremo. Hoje amparados, amanhã órfãos, em relação a tantas coisas. Hoje merecedores do amor de alguém, amanhã tendo que se reconciliar com a própria solidão. Ah, a coragem de olhar a realidade, de aceitá-la e evitar o perigoso jogo das comparações. É por isso que me sinto tentado a crer que uma boa solução é viver entre nossos pares, onde o mais e o menos perdem a sua importância, uma vez que estamos amparados pelas similaridades. “Ser o que se pode é a felicidade”, disse o escritor português Valter Hugo Mãe. Esse modesto contentamento que advém da capacidade de admirar, de recrutar a alegria a partir do que temos. Estabelecer limites, reconhecendo quando algo é suficiente, pode ser o início de uma ótima relação com questões simples e corriqueiras, mas que se não forem bem resolvidas levam à bancarrota emocional.
Tudo se resume à capacidade de ver com clareza. De retirar de nossos olhos essas vendas que são as máscaras sociais. Não precisamos corresponder a nenhum estereótipo, a nenhum modelo. Os demônios abrem a porta da nossa casa sempre que nos sentimos insatisfeitos com o que temos, mesmo estando abarrotados. Lembro aqui do poder que a igreja católica exerceu sobre as almas singelas da Idade Média. Usando a coerção, pregadores mal-intencionados aprisionaram com seus dogmas criaturas que só queriam a liberdade de pensar. Ameaçavam com castigos corporais terríveis e a danação eterna quem se rendesse ao Príncipe das Trevas. Hoje, a maioria de nós já não se deixa amedrontar por essa linguagem de jardim da infância. Pelo menos não os que fazem uso da lógica e da razão. Mas continuamos, isso sim, sendo tentados por outras espécies que habitam o mundo escuro do nosso inconsciente. Precisamos praticar uma espécie de exorcismo branco para ver com lucidez a real estatura do que nos aterroriza. Sua força diminuirá consideravelmente e seremos capazes de expulsar essa visita indesejável que veste a nossa roupa e se apropria de nossa voz.
Não há outros demônios senão os que alimentamos com o nosso medo.
No filme O Monge, do diretor Dominik Moll, um dos personagens diz: “O demônio só tem o poder que lhe damos”. Ou seja, é na nossa imaginação que os monstros crescem e passam a ocupar todos os espaços, todos os escaninhos da mente. O que para mim é motivo de tormentos indescritíveis pode deixar meu vizinho completamente indiferente. E, no entanto, a situação é a mesma para ambos. Aqui é que reside o poder de destruição que isso pode causar. Não importa se somos donos de vastas terras e contas bancárias invejáveis. Se dentro de nós persistir o registro mental da pobreza, pobres continuaremos sendo. Visto com certo distanciamento, como não invejar aquele casal jovem, bonito e que todo ano faz fantásticas viagens? Aproxime um pouco mais a lupa e você poderá descobrir resquícios de insatisfação onde tudo parece flertar com o perfeito. Se não conseguimos colocar em perspectiva os nossos planos, o que há realmente de satisfatório neste e naquele momento, estaremos fadados a fracassar em nosso projeto de bem viver.
Podemos afastar o demônio sempre que somos capazes de reconhecer o movimento oscilatório de nossos próprios sentimentos. Hoje aqui, amanhã no outro extremo. Hoje amparados, amanhã órfãos, em relação a tantas coisas. Hoje merecedores do amor de alguém, amanhã tendo que se reconciliar com a própria solidão. Ah, a coragem de olhar a realidade, de aceitá-la e evitar o perigoso jogo das comparações. É por isso que me sinto tentado a crer que uma boa solução é viver entre nossos pares, onde o mais e o menos perdem a sua importância, uma vez que estamos amparados pelas similaridades. “Ser o que se pode é a felicidade”, disse o escritor português Valter Hugo Mãe. Esse modesto contentamento que advém da capacidade de admirar, de recrutar a alegria a partir do que temos. Estabelecer limites, reconhecendo quando algo é suficiente, pode ser o início de uma ótima relação com questões simples e corriqueiras, mas que se não forem bem resolvidas levam à bancarrota emocional.
Tudo se resume à capacidade de ver com clareza. De retirar de nossos olhos essas vendas que são as máscaras sociais. Não precisamos corresponder a nenhum estereótipo, a nenhum modelo. Os demônios abrem a porta da nossa casa sempre que nos sentimos insatisfeitos com o que temos, mesmo estando abarrotados. Lembro aqui do poder que a igreja católica exerceu sobre as almas singelas da Idade Média. Usando a coerção, pregadores mal-intencionados aprisionaram com seus dogmas criaturas que só queriam a liberdade de pensar. Ameaçavam com castigos corporais terríveis e a danação eterna quem se rendesse ao Príncipe das Trevas. Hoje, a maioria de nós já não se deixa amedrontar por essa linguagem de jardim da infância. Pelo menos não os que fazem uso da lógica e da razão. Mas continuamos, isso sim, sendo tentados por outras espécies que habitam o mundo escuro do nosso inconsciente. Precisamos praticar uma espécie de exorcismo branco para ver com lucidez a real estatura do que nos aterroriza. Sua força diminuirá consideravelmente e seremos capazes de expulsar essa visita indesejável que veste a nossa roupa e se apropria de nossa voz.
Não há outros demônios senão os que alimentamos com o nosso medo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário